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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

ENTREVISTA COM NINO LEE, UM DOS PROPRIETARIOS E FUNDADORES DA MARKA DIABO




O mundo é muito pequeno, muito mesmo. Essa entrevista que segue, com o Nino Lee, um dos proprietários e fundadores da Marka Diabo, é uma grande prova disso. Eu explico o porque.

Há uns 12, 13 anos atrás, eu tinha meus 12 anos de idade, e começava a escutar rock. Quem mora em Montes Claros, sabe como era e ainda é difícil que algumas coisas cheguem até a cidade. Um belo dia eu vi uma revista que vinha com uma coletânea junto, como era bem comum na época. Neste CD, haviam variás músicas sendo uma delas “Conhece o Mario” da banda Maria do Relento. Essa foi a música que mais me agradou da coletânea, pelo som e tambem pela letra bem humorada. Porem naquela época, alem de eu ser muito novo, tambem não haviam as facilidades proporcionadas pela internet, e como aqui na cidade a gente não tinha muito acesso as coisas de fora, acabou que eu nunca mais ouvi falar da banda.

Eis que o tempo passa, eu me tornei jornalista e fazendo uma matéria, que falava que a Marka Diabo irá fazer camisas da banda montesclarense Gr!tare, tentei o contato com algum representante da empresa.

Quem me respondeu foi o Nino Lee, um dos proprietários e fundadores, que no seu email de resposta me disse entre varias coisas, que já havia tido uma banda, a Maria do Relento.

É engraçado quando essas coisas acontecem, mas prova que esse nosso mundinho é muito pequeno. Após o contato inicial com o Nino, algumas trocas de email, surgiu a oportunidade de uma entrevista com ele. Na entrevista ele fala do seu inicio com bandas de rock, o começo e a fama com a Maria do relento, e de como surgiu a Marka Diabo. Confira a entrevista completa a seguir:

POSSILGA: COMO SURGIU SEU INTERESSE POR ROCK?

NINO LEE:
Foi normal como grande parte da geração da minha idade (40 anos), embalada pelo primeiro Rock in Rio, mas meu primeiro contato com a musica foi com Thriller do Michael Jackson, aquele foi um disco que a meu ver gerou varias coisas que mudaram estruturas, coisas como o primeiro clipe de terror e a revelação de um grande guitarrista ao mundo de maneira brutal, no caso o Eddie Van Halen. Thriller foi o primeiro álbum que ganhei, por isso cito esse disco, ele é um divisor de águas, embora seja um disco tão pop, o primeiro vinil a gente nunca esquece, mas logo em seguida pintou o Rock in Rio e com ele descobri o heavy metal e daí por diante me tornei uma ovelha negra.


POSSILGA: QUAIS FORAM SUAS INFLUENCIAS MUSICAIS?


NINO LEE: Sempre tive um aspecto mutante no meu modo de absorver e armazenar a musica na minha cabeça, curto tudo que tenha fundamento verdadeiro, autentico, já vivi a musica em varias formas e segmentos, mas diria que o que mais me faz a cabeça são as pérolas dos anos 70 (incluindo as bandas que ninguém cita, mas que lançaram obras geniais) e os mestres sagrados ,cujo topo é encabeçado pelo Black Sabbath. Os anos sessenta também são habitantes sagrados na minha mente, desde as grandes bandas, os clássicos psicodélicos até as garageiras (não dá pra deixar de ouvir os Boxes Nuggets, para ter uma noção desse movimento) que consequentemente me levaram a curtir tambem o punk dos anos 70 e a new wave daquela época, não sei se isso é influencia ,mas é o que há de mais visível dentro da minha penseira depois de mais de 20 anos fissurado no universo do rock.


POSSILGA: COMO FOI O COMEÇO COM A BANDA MARIA DO RELENTO, QUAIS FORAM AS PRINCIPAIS DIFICULDADES NA ÉPOCA? FALE UM POUCO SOBRE A ÉPOCA EM QUE A BANDA TEVE UMA MAIOR REPERCUSSÃO NA MÍDIA NACIONAL E FEZ GRANDES SHOWS POR TODO O BRASIL.


NINO LEE: A Maria levou um tempo pra surgir, comecei com bandas em 89, tivemos varias formações, vários nomes, passamos por vários estilos até nos encontrarmos no rock pesado com uma banda chamada “Qual?” ,com ela começamos a conhecer a parada dos shows, dos buracos, pulgueiros, sempre agilizei tudo de maneira profissional, cuidava da parte dos flyers, fazia camisetas, adesivos, gravava demos com capas bem feitas e as enviava para qualquer programa especializado, qualquer revista que pudesse resenhar...o ponto mais legal da “Qual?” foi abrir o show da então badalada banda Yohodelic, na época, no maior auditório de Porto, o Araújo Viana.


A “Maria do Relento” surgiu quando meu irmão mais novo, o Peppe, começou a manifestar interesses musicais, o Peppe sempre foi um “piá” diferente, engraçado, era fanático do Silvio Santos ao extremo, ele curtia aquele lado bizarro e simplório dos programas do Silvio, e começou a transformar isso em letras pra ele mesmo, na inocência. Um belo dia ele apresentou essa idéia pra gente e começamos a testar aquelas letras nos 15 minutos finais de cada ensaio semanal da “Qual?”. Um lado interessante é que, como era algo sem compromisso, tínhamos carta branca pra transformar cada som no estilo que quiséssemos, e claro isso tinha o sangue e a energia que a “Qual?” tinha, aquele punch forte e nessas os sons começaram a ganhar contornos energéticos que começaram a surpreender todo mundo que andava as voltas pelo estúdio, daí por diante propostas para show começaram a pintar, mas não pra “Qual?” e sim pra esse projeto, que logo apelidamos de Maria do Relento.


De um show e outro, passamos a tocar todos os finais de semana de 92 e 93 variando entre “Qual?”e Maria, tudo pelo boca a boca, até que a demo começou a tocar nas rádios rock de Porto e interior. Em uma apresentação da “Qual?” na capital de Santa Catarina, um produtor me deu uma demo de uma banda de Brasília e me deu a dica para que ao chegar em Porto, na volta daquele show, ligasse urgente praquele numero da fita e marcasse um show dessa banda para, no mínimo 6 meses depois daquela conversa e foi o que fiz.


Em abril de 94, eu pegava os Raimundos (na rodoviária!) para fazer o primeiro show deles em porto alegre para divulgar a tour de seu primeiro e naquela altura estouradaço álbum. Um dos pedidos da banda foi pra que arranjássemos um estúdio pra eles ensaiarem um pouco, e como não achamos horário livre em nenhum bom estúdio propusemos que eles dividissem o ensaio com a gente, já que tínhamos hora marcada, seria uma hora pra cada banda, porque claro, tínhamos de estar tinindo pra abrir a primeira apresentação dos Raimundos em Porto, e seria tambem a primeira grande chance da Maria do relento, creio que esse encontro foi o começo dos nossos mais do que 15 minutos de fama, porque eles ficaram lá, sentados no chão do estúdio, ouvindo os sons da Maria do relento e curtindo pacas, na semana seguinte a demo estava indo parar direto na mão do Miranda (o maior produtor brasileiro na época e até hoje) entregue pelos próprios Raimundos.


O que se segue depois disso foi algo que mudou tudo em nossa vida, fomos contratados por um selo nacional, a Universal, mudamos pra sampa, entramos numa agenda inacreditável,viramos duas turnês no mesmo bus que os Raimundos, tocávamos nas principais rádios de São Paulo, enfrentamos festivais para mais de 50 mil pessoas como o Planeta Atlântida e o Skol Rock alem de festivais superbacanas como o Superdemo, começamos a lotar ginásios, clubes para 5 mil pessoas como banda principal, conhecemos nossos maiores ídolos. Enfim, nosso sonho musical se realizou, entramos numa espiral maluca, muito doida .


A tour do primeiro álbum durou mais de 3 anos e nesse meio tempo dois clipes emplacaram na MTV, ”Ritmo de festa” e “Conhece o Mario”, sendo que o de “Conhece o Mario” chegou ao primeiro lugar no disc mtv, varias vezes, era algo que nem nós acreditávamos, era tudo muito rápido. Entrevista no Jô, Programa livre, MTV, rádios de tudo que é canto. Acho que a maior dificuldade começou quando o atraso do disco (que ficou dois anos engavetado com o Miranda esperando a troca da gravadora do selo dele de Warner para Poligram/Universal) fez com que outra banda de conteúdo divertido aparecesse antes, Os Mamonas.


Enquanto eles não tinham aquela exposição gigantesca estava legal, mas logo que aquilo virou um fenômeno desproporcional começou a atrapalhar e com o acidente piorou tudo, porque estávamos em uma multinacional e claro, eles queriam que o fato do desaparecimento dos Mamonas revertesse em interesse em cima da gente, notamos que havia uma manipulação, a intensidade de aparições foi maior depois daquilo, no dia seguinte ao acidente havia jornais como a Folha de São Paulo nos ligando, perguntando o que sentíamos ao sermos apontados como os caras que ocupariam aquela brecha deixada, era ridículo, não suportamos isso, éramos engraçados e tudo, mas éramos toscos, não montamos a banda após ouvir um disco do Mamonas e dizer: é esse som que a gente vai fazer, não era um lance de usar pantufinha,a banda era muito mais gerada pelo rock gaúcho dos Cascavelettes, TNT, De falla , era zuerento ,desencanado. Nossa sorte é que o sul é outro país em termos de cenário musical e aqui a gente tinha nome forte e teria vida duradoura trabalhando bem os álbuns seguintes, depois do surto de bandas engraçadas que pintou querendo entrar na onda “mamonica”, a gente simplesmente não conseguia mais fazer nada divertido, porque jogaram tudo num saco das bandinhas engraçadas, até o Ultraje a rigor chegou a ser comparado ao mamonas!


Daí a decisão foi voltar ao sul, e repensar tudo, o segundo álbum foi uma mescla de humor e coisas mais serias, e seguiu no impacto do primeiro com uma tour de mais de dois anos, assinamos com o maior selo local, a gravadora Antídoto, que até hoje lança os discos da banda, mesmo que o conteúdo não seja mais o escracho. Hoje a banda segue na realidade,sem ilusões.

POSSILGA: QUAL FOI O MOTIVO DA SUA SAÍDA DA BANDA?



NINO LEE: A gravação do terceiro disco, com um produtor de sampa renomado,o Beto Machado (que havia feito Titãs, Ira, Mundo livre, Kiko Zambianchi, Raimundos)foi uma experiência marcante, um disco muito bem acabado , chamado “Historias pra contar”, sabia que aquela tour seria ótima porque mostrava a banda musicalmente muito mais madura , mas minha cabeça não suportava mais a vida na estrada, a banda havia nos dado suporte pra uma vida melhor pra cada um , mas minha filha nasceu, as responsabilidades que antes não haviam começaram a dar o ar da graça e não combinava mais com aquela vida desregrada que se levava na estrada, sempre fui da ala auto destrutiva, não preciso esconder, sempre fui o maluco beleza, mas comecei a entrar em parafuso, viva insone, entupido de tarja pretas pra sossegar a adrenalina nos hotéis depois das rodas de loucura e quando voltava pra casa tambem, era um claro sintoma de depressão e esgotamento total e era preciso fazer algo ou acabaria num hospício.


A saída era o fim pra mim naquele jogo, sair daquela espiral, aquele redemoinho que me puxava, sai com tudo na boa entre todo mundo e me auto exilei em Santa Catarina, próximo ao mar, longe de problemas. Se esperasse ainda mais um disco viveria a tour que segundo a banda foi a mais marcante de todas,do disco “Operação tocaia” que estourou dois hits “Nem todo dia é Igual” e “Naufrago”, foi doloroso não estar com eles quando ouvi a master que eles me enviaram do álbum, porque sabia que era um álbum belíssimo e no mínimo 3 sons iriam puxar o disco, mas minha sanidade veio em primeiro lugar.


POSSILGA: COMO SURGIU A MARKA DIABO?


NINO LEE: A Marka Diabo surgiu na união de duas cabeças, eu e minha atual esposa, a Ana Paula, uma pessoa que reencontrei durante meu período “hibernático” em Santa, ela pintou no momento em que eu estava pronto pra voltar a uma metrópole, uma babilônia. Eu cheguei a ter uma marca nos anos 80, chamada Hay Kay , onde desenhava minhas estampas, mas a sociedade da empresa não havia sido bem sucedida, porém aquela idéia nunca me abandonou , não é preciso muito pra saber que tudo na minha vida gira em torno de musica, minha paixão se assemelha a um arqueólogo, um pesquisador, e nesse embalo fui ficando afim de montar uma grife que colocasse na roda somente o que “não existisse”, somente o que não fosse vitrine, uma anti grife, até por isso a opção ideal foi Markadiabo, por ser uma gíria aqui do sul que define um produto que é uma outra opção que não aquela marca top, caríssima, e que demarca aquele que quer estar na moda, moda aliás é algo que nossa ideologia tem horror.


Também ajudou muito toda amizade que fiz no período de estrada com as bandas, isso é algo que nos faz únicos, hoje temos fieis clientes como o pessoal do Skank, Matanza, Rosa tattooada, Graforreia xilarmonica, reação em cadeia, Edu k, Replicantes, Danm laser vampires, Débora Falabela, o pessoal da revista Set, da MTV, da Trama, da radio cidade de São Paulo. É tudo fruto de uma trabalho chamado paixão pelo que se faz.


POSSILGA: COMO VOCÊ VÊ O ATUAL MOMENTO DO ROCK NACIONAL?


NINO LEE: Depende do que você chama rock nacional, se é o que ta aê no radio, odeio tudo, com exceção do Skank, Matanza e da Cachorro grande. O underground ta bacana, tem coisa boa, a Danm laser vampires é genial, a Oxe é genial, tem a Desvio padrão que faz um belo som na linha do Barão vermelho das antigas, mas tem muita banda, e isso eu digo por que recebo propostas de patrocínio semanais que estão muito calçadas em duas vertentes, ou seguem o rastro da Cachorro grande ou seguem a cartilha emo core, essas podem até ser boas, mas ao meu ver tem vida curta.


POSSILGA: VOCÊ CONCORDA COM A OPINIÃO DE QUE AUMENTOU SE O NUMERO DE BANDAS, POREM DIMINUI A QUALIDADE?


NINO LEE: Acho que qualidade tem muita espalhada por aê, o que não tem mais é cenário propício como antes, nos anos 90 existia lugar pro rock, as rádios tocavam mesmo, cada estado tinha sua cena fortíssima, me lembro que revistas como a Veja ou a Bizz que viviam publicando coisas sobre o cenário de Minas, de Brasília, do sul, da Bahia. Hoje não tem mais isso, não se vende mais CD, gravadora não contrata mais, e estamos no período transitório das mudanças que a internet trouxe, se isso for usado direito e o publico procurar, se interessar, vai ser mais fácil separar o joio do trigo, o que tiver de banda boa vai saltar pra fora, o que for ruim esquece, a galera vai ter que se puxar, mas é certo que o numero de porcarias aumenta porque fazer um myspace qualquer um faz e hoje um disco se grava em casa, além das facilidades de mentir com perfis e comunidades fakes, eu já vi casos de bandas com 70 mil membros e que nunca fez um show, isso me enoja, essas coisas atrapalham muito porque pra haver novamente uma cena viva e pulsante, pra haver novamente algo tão sincero e bombástico quanto os Raimundos vai ter de ser verdadeiro, real.


POSSILGA: O QUE VOCÊ ACHA DE MP3 E DOWNLOADS GRATUITOS?


NINO LEE: Cara, como qualquer um, eu baixo coisas gratuitas, mas só o que é muito raro de se conseguir, pra arquivar no meu catalogo de pesquisador. Enchi o saco disso tão logo percebi o quanto isso é estúpido pra um cara que é realmente fã do rock sabe. Sou de uma época em que passava os sábados no centro da cidade, em sebos de discos garimpando preciosidades e ficava fascinado quando colocava o disco pra tocar, eu extraia o supra sumo daquela obra, de cada faixa do disco. Hoje vem um moleque qualquer e me diz que tem toda coleção de tudo que é banda do mundo no pc dele, mas o que esse cara extraiu disso? O que adianta o cara ter cem discos baixados semanalmente se ele mal vai ouvir um deles?


Já faz um ano que voltei a comprar discos de vinil, não compro mais CDs , e sabe me sinto um garoto de novo, encontrei uma revalorização na musica, no álbum, no contexto da obra, alguns discos são caros, mas tem bons nacionais por preços bem menores, dou preferência aos importados de 180 gramas, mas experimente, por exemplo, ouvir em um bom prato um álbum de 180 gramas do Sabbath ,do Cream, do The Who (o Who next por exemplo, vem em edição tripla), do Blue Cheer, o som é inacreditável, uma de minhas ultimas aquisições foi o do Wolfmother, edição de luxo duplo, capa dupla, cara a coisa é tão mágica! Queria muito que o vinil voltasse, mesmo que isso seja impossível, pelo menos pra mim isso é real.


Acho q a indústria do CD ferrou quando começaram a recolocar todos os catálogos das bandas de vários formatos diferentes, para que o cliente estúpido tivesse de adquirir tudo de novo três vezes, no mínimo. Na edição normal, na edição remasterizada e na edição remasterizada e com um monte de bônus tracks. Acho que a própria ganância da industria a matou. Eu sou analógico por natureza, o próprio site do Marka Diabo é feito de maneira manual, sem essa de montar algo com sites de estrutura pronta, mecanizada, robotizada , compradas facilmente por aê. No site o cara tem de navegar, sentir sua vibe, se surpreender por algo que ele não esperava e ver que derrepente nem ele sabia o quanto era aquilo que ele buscava numa camiseta. Nem sempre toda essa agilidade na internet é legal, às vezes o cara deixa escapar algo realmente bacana.


POSSILGA: PARA FINALIZAR, FAÇA UM CONVITE AOS MONTESCLARENSES, PARA VISITAR O SITE DA MARKA DIABO


NINO LEE: Pessoal, o site ta aê no ar www.markadiabo.com, é um site inusitado, diferente, manual, nostálgico, feito com o coração de uma dupla que adora a palavra “cult. Obrigado por tudo.

3 comentários:

Thiago disse...

Legal, samuel!
Issae dom... excelente entrevista!
Nino lee é uma "figurassa"!

Abração!

SoFia disse...

bakana a enrevista samuel... parabens ae!!!

Carolina disse...

porra, legal mesmo!!!
eu sou fã da MD... e gosto do Nino pra caramba...

legal seu blog hein...
vou acompanhar...

Bjs!!!

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